26.7.11

Para ajudar o River Plate, troque-se o sofá



Vejam o que o rebaixamento de um grande no futebol de um país não é capaz de fazer: na Argentina, onde o tradicional River Plate foi rebaixado pela primeira vez em sua história, acaba de ser decidido pela AFA (Associação de Futebol da Argentina) que o campeonato nacional será reformulado a partir da temporada 2012-13. Não haverá rebaixamento para a Segunda Divisão ao final da próxima temporada (2011-12), e todos os times da Segunda Divisão que não caírem para a Terceirona serão automaticamente promovidos - o que inflará o Campeonato Argentino para 38 times. Ou seja: o River Plate só não estará na elite ano que vem se for rebaixado novamente. Leia mais aqui.


É a repetição daquela velha parábola da troca do sofá para tentar resolver um caso de adultério: não resolve nada e ainda estende o problema. Tipo de virada de mesa que nós, brasileiros, conhecemos muito bem e esperamos nunca mais presenciar novamente no Campeonato Brasileiro. Algo que lembra bastante o ocorrido por aqui em 1991, quando o Grêmio foi rebaixado para a Segunda Divisão. A CBF decidiu que, em 1992, nenhum time cairia para a Segundona, cujos 12 primeiros colocados subiriam para a Primeira (o tricolor gaúcho terminou a Segunda Divisão de 1992 em nono lugar). Resultado: em 1993, o Campeonato Brasileiro (que antes tinha 20 equipes participantes) passou a ter 32 times, no ano seguinte teve 24, e demorou bastante para voltar a seu número considerado ideal de 20 clubes (depois de várias idas e vindas, apenas o conseguiria em 2006, já na era dos pontos corridos).


O pior é constatar que o "jeitinho argentino" pode ter um forte componente político: a presidente argentina, Cristina Kirchner, tentará a reeleição neste ano e deseja ampliar seus domínios sobre o futebol do país, o que inclui a transmissão pela TV, que é feita pela emissora pública nacional (o que não se estende à Segunda Divisão, pelo menos por ora). A ampliação do número de times na Primeira Divisão do país é mais uma dessas tentativas, o que faz lembrar as atitudes do regime militar brasileiro nos anos 70, quando o Campeonato Brasileiro, visando a apenas atender interesses políticos, inchou de tal forma que chegou a ter 94 clubes, em 1979.


Aspectos positivos dessa mudança? Sim, eles existem: depois de muito tempo, o Campeonato Argentino voltará a ter apenas um campeão (ou será que alguém não acha meio estranho termos dois campeões nacionais, do mesmo campeonato, toda temporada?). Além disso, pode ser extinto o bizarro Promedio, a média de pontos das últimas três temporadas para definir os times rebaixados (para ter-se uma ideia, quando tentaram imitá-lo aqui no Brasil, resultou na famigerada Copa João Havelange). Mas isso não compensa o fato de que, mais uma vez, a política interfere e atrapalha o mundo do futebol. Pena.

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